6. GERAL 10.10.12

1. GENTE
2. IDEIAS  FOI-SE O MARTELO
3. GUSTAVO IOSCHPE  O QUE OS CANDIDATOS ESTO DIZENDO... E O QUE FUNCIONA MESMO
4. PERFIL  AGUENTA, CORAO!
5. HISTRIA  CRISE DOS MSSEIS  50 ANOS  O MUNDO QUASE ACABOU
6. COMPORTAMENTO  TRADOS E TRIPUDIADOS
7. CINCIA  MAIS UM PEQUENO PASSO

1. GENTE
JULIANA UNHARES. Com Dolores Orosco

ARMA DE SEDUO EM MASSA
Quando tinha 15 anos, FLVA ALESSANDRA, hoje com 38, foi expulsa do colgio militar onde estudava porque inventou de frequentar as aulas usando batom, esmalte e cruz  la Madonna. A rigidez da escola e da educao recebida do pai, comandante reformado da Marinha Mercante, tem inspirado a preparao da atriz para viver a tenente Erica na prxima novela das 9, Salve Jorge. Flvia fez aula de luta e de tiro com fuzil. At pilotou tanque de guerra. H seis meses treina corrida na areia na Barra da Tijuca. O esforo foi tanto que passei do manequim 40 para o 36.  o fim do visual atriz italiana: peito e brao grosso, diz Flvia, capa da revista BOA FORMA deste ms. Soldadesca, a postos.

ESSA FOI DE CHORAR
O carro amarelo j est com a quilometragem alta e ainda tem um sul-coreano pulando na internet mais do que potro novo solto no pasto.  No melhor esprito da livre concorrncia, o cantor MARIANO, da dupla sertaneja com Munhoz, fez um esforo extra para se destacar no lanamento de uma nova msica. Vem Cuidar de Seu Beb. Nos shows, ele surge de um bero, trajando fralda, chupeto e chapelo. Eu vou deixar voc passar talquinho... Bu, bu, bu, sussurra. Ex-entregador de marmita, Mariano j adquiriu casas, carro, moto, quilos de msculos e muita autoestima. A figura de Mariano hoje  um objeto de desejo, informa o bebezo.

ORGANIZAO DA FOFURA UNIDA
Nem a secretria de Estado dos EUA, HILLARY CLINTON, resistiu, e acabou dando uma conferida na exuberncia da cantora CHRISTINA AGUILERA, com quem cruzou num evento beneficente da ONU. Alm do silicone de praxe, Christina vive num entra e sai do clube das cantoras de alta milhagem calrica. Na atual fase cheinha, ela disse que se revoltou contra a gravadora que queria controlar seu peso e desafiou: Sou gorda. Virem-se. Sem perceber, tambm entrou no campo dos esteretipos: Sou equatoriana, no uma branquinha de olhos azuis. A referncia   origem de seu pai, com quem  rompida e ao qual j acusou de violncia.

POODLES? NO, PIT BULIS. E MORDEM
Parece uma Histria das Mil e Uma Passarelas. Primeiro, a feroz crtica de moda do New York Times, Cathy Horyn, desancou DONATELLA VERSACE por emprestar vestidos histricos a LADY GAGA. A cantora pulou na canela da crtica. Nos desfiles de Paris, apresentou uma msica cheia de palavres sobre ela. A briga se propagou quando o novo estilista da Saint Laurent, Hedi Slimane, transformou uma mgoa antiga em proibio  presena de Horyn em seu desfile inaugural. Levou uma pancadazinha da crtica, foi ao Twiuer com manifestos indignados. Acusou-a at de proteger o rival Raf Simons, da Dior. S no deu mordida at agora FOZZI, o cachorrinho de Lady Gaga.

ELE TEM UM BILHO DE AMIGOS
 necessria uma nova definio de poder quando um em cada sete habitantes da Terra est ligado na sua inveno. Todo contente, MARK ZUCKERBERG, 28, anunciou no Facebook: sua rede social j  usada por 1 bilho de pessoas. Est explicado por que basta olhar para o lado para ver algum encarando uma pagininha azul no celular. Ainda mais no Brasil, um dos grandes campees do Face.  a coisa da qual mais me orgulho na vida, derreteu-se Zuck. Coerente com o estilo garoto desencanado, ele confirmou que praticamente s usa camisetas cinza. Tem mais de vinte. E uma nica gaveta no closet dominado pela mulher, a mdica Priscilla Chan.


2. IDEIAS  FOI-SE O MARTELO
Na sua viso particular do sculo XX, o historiador ingls Eric Hobsbawm martelou sem d no leitor sua devoo religiosa ao comunismo, cujos crimes ele escamoteou.
EURPEDES ALCNTARA

     Os ingleses so apaixonados por histria. A Inglaterra deu ao mundo extraordinrios historiadores. Edward Gibbon produziu no sculo XVIII a narrativa definitiva do declnio e queda do imprio Romano. No sculo seguinte, Macaulay escreveu uma histria da Inglaterra que ainda no foi superada. Muitos outros se ombrearam com esses em pesquisas e relatos rigorosos, originais, honestos e sagazes da histria contempornea. Alan John Percivale Taylor, Hugh Redwald Trevor-Hoper, Arnold Toynbee, para citar alguns poucos. Eric Hobsbawm, morto aos 95 anos na semana passada, no forma nesse time por ter deixado sua devoo religiosa ao marxismo embaar sua viso do sculo XX.
     O marxismo  um credo que tem profeta, textos sagrados e promete levar seus seguidores ao paraso. Os poucos sistemas polticos erguidos sobre essa f desapareceram. Sobraram umas ilhas de misria insignificantes. Como todas as teocracias, os governos marxistas foram ditatoriais, intolerantes, rpidos no gatilho contra quem discordava deles  foram estados assassinos. O escritor ingls H.G. Wells, autor de A Guerra dos Mundos, descreveu o alemo Karl Marx (1818-1883) como uma mente de terceira, postulador de uma tese de segunda, propagandeada por fanticos de primeira.
     Hobsbawm teve a chance de presenciar evidncias concretas de seus equvocos. Ele testemunhou o desmoronamento do comunismo, com a imploso do sistema sovitico no comeo da dcada de 90. S muitos anos mais tarde admitiu que, por ter sido to completo o colapso da Unio Sovitica, parece agora bvio que a falha estava embutida no empreendimento desde o comeo. O encadeamento dedutivo lgico, racional, dessa constatao s podia ser o reconhecimento de que sua prpria obra tinha uma falha estrutural de nascena  a cegueira aos crimes do comunismo. Mas f e razo no andam juntas. Van Gogb foi um louco que pintava nos momentos de lucidez. Ernest Hemingway era um porre quando bebia  e entornava , mas escrevia sbrio. Hobsbawm foi um comunista que fez coisas notveis quando lcido. Os filsofos Isaiah Berlin e Leszek Kolakowski demonstraram que o marxismo atua no mesmo nvel mental da transcendncia, rea distante da que processa os pensamentos e atos racionais. Isso explicaria por que, mesmo morto e enterrado como teoria e prtica, o marxismo sobrevive como igreja  ou igrejinha, quando instalado em crculos acadmicos. Cardeal da seita, Hobsbawm tinha convices impermeveis aos fatos e  lgica.
     Karl Marx se acreditava um observador cientfico da realidade cujas afirmaes sobre a superao do capitalismo pela revoluo comunista no eram meras previses. Eram profecias. A classe operria ficaria to numerosa e miservel que tornaria inevitvel o confronto vitorioso final com a burguesia. Algo deu errado. Em vez de empobrecerem, os operrios foram ficando mais ricos  muito mais ricos do que seus antepassados jamais sonharam. Os pases europeus, alvo de Marx, aplacaram a radicalidade das massas com reformas e assistncia social.
     Marx recebeu uma carta de Friedrich Engels, o amigo que o sustentava com a mesada do pai, rico industrial alemo. A carta era um lamento desesperado: Os proletrios ingleses esto se tornando mais e mais burgueses, mais burgueses do que os de qualquer outra nao; ns temos agora uma burguesia aristocrata e tambm uma burguesia proletria.  desconhecida a reao de Marx ao choque dado por Engels, mas nas religies a realidade no tem valor de convencimento. Os crimes cometidos por lderes e seu aparato de eliminao dos adversrios (e dos aliados incmodos), a derrocada moral e material da seita? So eventos insignificantes para os convertidos.
     A Igreja Catlica encontrou uma sada para explicar um papa como Alexandre VI (1492-1503), nobre poderoso que comprou sua eleio e transformou o trono de Pedro em testemunha de esbrnias, bacanais e crimes. Os pensadores catlicos argumentam que ter sobrevivido a Alexandre VI  mais uma prova da origem divina da Igreja. Hobsbawm tambm sacralizou o comunismo para no enxergar seus erros. Seus livros que tratam da histria contempornea trazem uma coleo disciplinada, fervorosa e ardente de justificativas das atrocidades comunistas  misso a que ele se entregou valendo-se de omisses, evases, contradies e circunavegaes.
 discutvel se alardear a prpria desonestidade intelectual  uma atenuante do vcio, mas Hobsbawm nada fez para esconder que seus compromissos ideolgicos estavam acima do dever de relatar a histria com objetividade e rigor. Quando o fato  prejudicial a seu credo, azar do fato. Ele revela talento, capacidade de trabalho e domnio das fontes quando narra a histria do sculo XIX. Essas qualidades desaparecem nos relatos posteriores. Na autobiografia, Tempos Interessantes: uma Vida no Sculo XX, ele faz uma nica crtica contundente  Unio Sovitica: lamenta que os interesses do estado sovitico tenham atrapalhado a busca da utopia comunista. H certa compostura em sua prosa. Mas proselitismo elegante continua sendo proselitismo. Para defender no livro A Era dos Extremos os massacres cometidos por seu santo de devoo, o ditador sovitico Josef Stalin, ele se sai com esta: Nas condies existentes nos anos 1930, o que Stalin fez na Rssia, por mais chocante, foi um problema russo, enquanto o que Hitler fez foi uma ameaa para todo o mundo. Isso  clssico Hobsbawm. Ele tinge se chocar com as atrocidades de Stalin, mas pe todo o foco sobre os crimes de outro facnora, Hitler. Se Hitler foi pior do que Stalin  uma discusso que eles mesmos devem estar travando at hoje no anel interior do stimo crculo do inferno de Dante. (Quem sabe Hobsbawrn no se encontra com Marx na quarta cova do oitavo crculo.)
     O fato  que Stalin se aliou a Hitler em 1939 para juntos saquearem e dividirem a Polnia entre eles. Quem se informar sobre o episdio pelo catecismo de Hobsbawm no vai saber que a aliana nazicomunista se deu com o objetivo geopoltico de pilhar a Polnia e domin-la para sempre, com a eliminao de sua elite militar. Essa diretiva macabra foi levada a cabo no que se conhece hoje como o Massacre da Floresta de Katyn. Ali, a mando de Stalin, um a um, 20.000 oficiais poloneses foram mortos com tiros de pistola. Na falta de munio os carrascos soviticos os estrangulavam com torniquete. Cmplice, Hobsbawm diz apenas que a Unio Sovitica se recusou a continuar se opondo a Hitler.
     Hobsbawm fingiu que no eram com ele a censura, as execues sumrias da polcia poltica, os gulags. Silncio sobre a operao planejada de matar de fome, por vingana, duas dezenas de milhes de habitantes da Ucrnia, um dos mais odiosos processos conduzidos por Stalin. Tal barbaridade seria repetida mais tarde por Mao Ts-tung na China e Pol Pot no Camboja, genocidas que ele tambm bajulou.
     No ardil mais tosco de que se tem notcia de algum com reputao de grande intelectual, ele ps a culpa dos crimes comunistas... em quem? Ora, no capitalismo: Como resultado da quebra da economia do Ocidente (a depresso dos anos 30), ns ficamos com a iluso de que at mesmo aquele sistema brutal, experimental, funcionaria melhor do que o adotado no Ocidente. Era aquilo ou nada. Poderia ser uma opinio razovel na dcada de 30. Continuar propagando-a durante cinco dcadas  fraude. Quando Nikita Kruschev revelou, em 1956, a real extenso da loucura assassina do stalinismo, Hobsbawm correu a condenar... quem? Kruschev, ora!
     Em certos momentos ele chegou ao nvel da loucura. Conta o escritor ingls David Pryce-Jones que, na mesa de jantar de um amigo comum, Hobsbawm, que era judeu, sugeriu acabar com a tenso no Oriente Mdio jogando uma bomba atmica em Israel. Em uma notria entrevista televisiva, o canadense Michael Ignatieff perguntou-lhe se o assassinato de 20 milhes de pessoas por Stalin e os 55 milhes a 65 milhes de vtimas de Mao Ts-wng na China teriam sido justificados caso a utopia comunista tivesse se concretizado. Hobsbawm respondeu: Sim.
     Deus expulsou Ado e Eva do paraso, mas o comunismo prometia nada menos que a reconquista do den. Nos textos sagrados, a descrio do paraso  sempre nublada, misteriosa. Com o marxismo no foi diferente. Como seria o paraso comunista? Marx, escritor prolixo, descreveu-o brevemente uma nica vez: Na sociedade comunista, onde ningum tem uma esfera exclusiva de atividades, a sociedade regula a produo em geral e isso torna possvel  pessoa fazer uma coisa hoje e outra amanh, caar de manh, pescar  tarde, criar gado de noite, escrever crticas literrias depois do jantar, exatamente o que eu pretendo fazer, sem nunca me tornar caador, vaqueiro ou crtico. No se sabe por que no paraso comunista a caa&pesca  vital e o gado  albino, j que deve ser criado no escuro.
     Mas ser que, em nome dessa fantasia, teria sido mesmo necessrio produzir um himalaia de cadveres de inocentes? Que motivos levam gente at bastante ilustrada a acreditar nessa escatologia pueril? A f. O fanatismo com que encampam dogmas comunistas tais como a moralidade  uma iluso ou a tica  uma arma da elite dominante. (Isso lembra algo e algum no Brasil de agora?) Tantas mortes, tanta misria intelectual e moral para qu? Para podermos pescar, caar e criar gado  noite, ora!


3. GUSTAVO IOSCHPE  O QUE OS CANDIDATOS ESTO DIZENDO... E O QUE FUNCIONA MESMO

     O papel aceita tudo, e nada mais propcio do que uma campanha eleitoral para dar asas  criatividade de nossos polticos. Bombardeado pela avalanche de cenrios rseos  se eleitos, os candidatos universalizaro a matrcula, ampliaro a carga horria, valorizaro o magistrio, criaro escolas inclusivas, prximas da comunidade, com tablets e tecnologia de ponta , talvez o eleitor comum encontre dificuldade em destrinchar todo esse mar de promessas, separar o relevante do desnecessrio e distinguir o exequvel da promessa oca. Na ltima semana, pesquisei os programas de governo dos candidatos a prefeito das principais capitais brasileiras, mirando suas plataformas na rea educacional. Apesar de vrias dessas capitais  Porto Alegre, Curitiba, So Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza e Manaus  terem realidades bastante diferentes, h uma convergncia incrvel de propostas, inclusive entre candidatos de partidos antagnicos, em um indicador de que o marketing venceu o contedo. Elenco a seguir as principais promessas, e a elas contraponho aquilo que a literatura emprica revela que daria mais resultado. Se,  claro, os candidatos se interessassem por gerar melhorias na qualidade da educao, e no simplesmente por ganhar o seu voto.

ENSINO EM TEMPO INTEGRAL
O que os candidatos prometem: aumentar fortemente o nmero de alunos em ensino de tempo integral, usando o contraturno especialmente para atividades culturais.
O que funciona: no h evidncia de que a implantao do tempo integral leve a avanos na aprendizagem. O calendrio brasileiro prev 800 horas-aula por ano. Nos pases da OCDE, aqueles com a melhor educao do mundo, a mdia no ensino fundamental  de 743 horas. No Brasil temos 200 dias de aula. Nesses pases, h 186. Quantidade no  qualidade. O problema maior de nossas escolas no  que a jornada regulamentar no seja longa o suficiente, e sim que ela no seja cumprida. Um estudo do Instituto Unibanco em dezoito escolas do ensino mdio mostrou que 22% das aulas previstas eram canceladas   como se o aluno tivesse um dia inteiro da semana livre. Alm disso, mesmo quando a aula ocorre, seu aproveitamento  muito baixo. O estudo acima, alm de outro do Banco Mundial (disponveis em twitter.com/gioschpe), sugere que algo entre 29% e 39% do tempo de aula seja desperdiado com atividades que no tm relao com o ensino. Antes de ampliarem a jornada, portanto, nossos gestores deveriam se empenhar para que o longo calendrio atual seja cumprido. E se, depois disso, quiserem implementar o ensino integral, que o faam com o ensino das competncias nas reas de matemtica, portugus e cincia, que possibilitaro ao aluno pobre ter um futuro melhor, Aulas de bal, jud e croch no fazem o ensino progredir e no tm impacto no desenvolvimento acadmico.

TECNOLOGIA EM SALA DE AULA
O que os candidatos prometem: instalar laboratrios de informtica e redes wi-fi nas escolas, distribuir laptops ou tablets a alunos e professores, colocar lousas mgicas em sala de aula.
O que funciona: no h nenhuma evidncia de que qualquer dessas medidas tenha impacto sobre o aprendizado, como detalhei no artigo A tecnologia no nos salvar (VEJA, 21 de maro). No adianta muito a instalao de hardwares ou softwares quando os professores no esto capacitados a us-los e quando os alunos entendem muito mais do universo virtual do que seus mestres.  possvel ter educao de qualidade sem alta tecnologia desde que os profissionais da educao sejam qualificados e comprometidos.

VALORIZAO DO MAGISTRIO
O que os candidatos prometem: aumentar o salrio de professores, estruturar carreiras atraentes, investir em eventos de formao de professores. 
O que funciona: salrio de professor no tem relao com a qualidade do ensino ofertado. A pesquisa sobre o assunto  farta, e a inexistncia dessa correlao, conclusiva. Quando um candidato fala sobre plano de carreira, o que ele normalmente quer dizer  que os professores tero aumento de salrio de acordo com a sua experincia e/ou nvel de conhecimento profissional, sem nenhuma relao com seu desempenho e o aprendizado dos alunos. Quando fala de formao,  preciso esmiuar exatamente o que quer dizer. Como a maioria das cidades no conta com universidades municipais e os prefeitos no tm ingerncia sobre o currculo das universidades privadas, federais ou estaduais, ao falar sobre a formao do professor, o candidato normalmente quer gastar dinheiro com cursos comprovadamente ineptos ou promover eventos de treinamento que, na verdade, so eventos de lazer, em que algum canta, outro declama um poema, h um teatrinho e uma palestra com algum autor de autoajuda de quinta e estamos conversados. Nada disso adianta.  curioso que os candidatos no falem quase nada a respeito de um profissional que tem importncia decisiva na qualidade de uma instituio de ensino e sobre o qual os prefeitos, sim, tm influncia: o diretor de escola. Duas medidas simples j ajudariam: aumentar o salrio dos diretores (a pesquisa mostra que, no caso deles, o salrio tem relao com a qualidade do aprendizado) e prometer que no haver indicao poltica para esse cargo, e sim processo seletivo composto de prova e posterior eleio pela comunidade escolar.

EDUCAO INCLUSIVA E DEMOCRTICA
O que os candidatos prometem: fazer com que todas as escolas estejam preparadas para receber alunos portadores de necessidades especiais e que tenham relacionamento mais prximo com os pais dos alunos, em alguns casos matriculando-os na escola inclusive.
O que funciona: o que quer que voc ache sobre a incluso de alunos com problemas fsicos ou cognitivos, o fato  que eles representam um contingente pequeno, cerca de 1,5%. H outro problema mais srio que acomete at 50% dos alunos e sobre o qual ningum se manifesta: os distrbios de sade que afetam o aprendizado.  relativamente simples tratar uma criana hoje marginalizada por um problema de audio ou viso e v-la tornar-se um bom aluno. Uma proposta simples e relativamente barata que todo candidato poderia fazer  realizar um exame de sade bsico em todos os alunos da rede nos primeiros dias do ano letivo. A China faz isso, com timos resultados. Belo Horizonte tambm. Uma medida objetiva da real inteno democratizante dos candidatos seria garantir que toda escola tenha um Conselho Escolar que congregue pais, alunos, diretor, professores e funcionrios. S um tero das escolas brasileiras ainda no tem conselho. Implant-lo em todas as escolas e reservar a presidncia aos pais seria um bom comeo.

P.S. Seria injusto deixar de apontar boas surpresas ditas por candidatos. Marcio Lacerda, em Belo Horizonte, e Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, tm programas que, em linhas gerais, este articulista assinaria embaixo: compromisso com a qualidade do ensino, foco na garantia do aprendizado (com alfabetizao na idade certa), metas ambiciosas e objetivas, calcadas em ndices como Ideb e IDH, e nfase na qualificao do professor.


4. PERFIL  AGUENTA, CORAO!
No embate da periguete com a ingnua, quem ganha  Dbora Nascimento, a Tesslia que as espectadoras querem imitar. E ela ainda conquistou o forto Jos Loreto, com quem repetir o par romntico na prxima novela das 6.
GABRIELE JIMENEZ

     A sesso de fotos est para comear. Nervosa, ela agita os cabelos com as mos para dar mais volume aos cachos negros. Indecisa, pega o vestido dourado de paet, encosta no corpo a minissaia com blusa justinha, pede a opinio de todos em volta sobre o que vestir e troca de roupa trs vezes. Na hora dos acessrios, mais dvida: Brinco ou colar?. Antes de posar, ainda retoca os cachos um a um e passa creme nas pernas e nos braos.  difcil acreditar, mas Dbora Nascimento, a espetacular Tesslia de Avenida Brasil, fica toda insegura na hora de pr em evidncia os atributos que derrubam o queixo de homens (suspiro...) e mulheres (que inveja...) toda noite no horrio nobre. Por isso mesmo  perdo, Lelecos  no aceitou nem pretende aceitar as propostas para posar nua, que j chegam ao patamar de 1 milho de reais. No sou apegada a coisas materiais, no tenho vontade de fazer, garante, muito meiga.
     Dbora, 27 anos, paulistana da Vila Matilde, bairro da Zona Leste,  assim mesmo: doce, simptica, s vezes meio infantil, em total contradio com o mulhero de medidas perfeitas distribudas em 1,78 metro e 65 quilos que encanta o Divino, na fico, e o pas, na vida real. Tambm avanou da fico para a vida real o romance entre Tesslia e o locutor-vendedor Darkson: flagrada aos beijos com o forto Jos Loreto em uma manh de folga no Rio de Janeiro, ela trocou a negativa veemente e meio zangada (Parece at que uma mulher no pode se sentir plena sem que logo venham lhe arranjar um homem) pelo batidssimo no comento esse assunto, sacado do manual internacional de celebridades que negam romances. Traduo: esto namorando. E, segundo os invejosos, saem pela tangente para afastar as suspeitas de que, quando a divina morena cedeu ao charme do bonito, ambos eram comprometidos. Ela, com um empresrio de So Paulo. Ele, com uma arquiteta do Rio de Janeiro. Assumido ou no, o namoro tem um lado muito lucrativo: a agenda do casal anda lotada de convites remunerados que vo de inaugurao de loja a festa em cidade do interior.
     Com seu jeito romntico emoldurado por um corpo escultural, Dbora atropelou o outro furaco do Divino  a periguete Suelen, vivida por Isis Valverde
 e se tornou o assunto do dia das telespectadoras que recorrem  Central Globo de Atendimento: todas querem saber como a Tesslia cacheia os cabelos (o cabeleireiro aplica um gel para proteg-los do calor, refora o ondulado natural com babyliss tipo mdio e abre os cachos um por um para ficarem mais naturais) e onde se podem achar as microssaias e vestidinhos colados com que ela desfila pelas ruas do Divino (parte em Madureira, no Rio de Janeiro, parte no Brs, em So Paulo). A atriz, que comprou um carro novo mas est juntando dinheiro para um apartamento na Gvea ou na Barra da Tijuca, ainda se espanta com a popularidade. Eu era to excluda na escola que nem apelido me puseram. Sempre tive poucos amigos, nunca fui a aluna popular, era muito alta e tinha cabelo crespo, lembra. Ela s soltou a cabeleira depois dos 15 anos, quando virou modelo. Usava o cabelo preso porque achava feio. A deslumbrante morenice de olhos verdes se deve  mistura de negros, por parte de pai, com italianos e ndios, por parte de me. Mas, at chegar ao esplendoroso visual de Tesslia, Dbora ainda passou por grandes e sofridas transformaes estticas. Aos 16 teve um princpio de anorexia. Eu dividia uma ma em quatro partes e fazia disso minha refeio diria, lembra. Queria chegar aos 52 quilos, porque tinha lido que a Gisele Bndchen pesava isso. Aos 19, enquanto morava na Cidade do Cabo, na frica do Sul, engordou 20 quilos. Fiquei deprimida, com saudade do Brasil. Comia um po de frma inteiro e uma barra de chocolate por dia. Hoje, mantm a forma com corrida, bicicleta e aulas de pilates e muay thai, e parece ter resolvido seu conflito ntimo com a comida. Como fritura quando quero e no resisto  bacalhoada da minha me. Dos tempos de modelo, carreira que trocou pela de atriz aos 21 anos, guarda o talento para aprender outras lnguas. Chegou a se virar em mandarim, tailands e servo-croata, alm de aprender ingls suficiente para conquistar uma ponta em O Incrvel Hulk, de 2008, com Edward Norton e Liv Tyler (impresses de Liv sobre Dbora: Que lbios! Que seios! Essa mulher  poderosa). Tambm atuou no brasileiro Budapeste, de 2009  onde tirou, sim, a roupa toda, mas em nome da arte.  como se eu tivesse apertado um boto e, instantaneamente, aquela no era mais eu, e sim a personagem, explica, recorrendo mais uma vez a uma frase de manual.
     Com esse currculo, no surpreende que a carreira tenha deslanchado justamente com um papel sexy, ainda que pudico. A Dbora tem uma beleza diferente. Ela me lembra muito a Juliana Paes quando comeou.  espetacular, mas ingnua, e tem uma exuberncia que no agride, derrete-se o diretor Ricardo Waddington, que a escolheu para o papel. Ela  muito adequada  personagem, por isso o trabalho est aparecendo. To adequada que a Globo pretende repetir a dose em breve. Dbora j est escalada para a prxima novela das 6, com o ttulo provisrio O Caribe  Aqui. Ser, de novo, uma moa do bem, e seu par romntico, mais uma vez, ser o colega, e agora namorado, Loreto. Ficou para outra oportunidade a skinhead tatuada e muito louca que a moa sonha interpretar para fugir dos esteretipos. Sou capaz de tudo por um bom papel  at raspar a cabea, declara, compenetrada. Aguenta, corao! 

5. HISTRIA  CRISE DOS MSSEIS  50 ANOS  O MUNDO QUASE ACABOU
DUDA TEIXEIRA, NATHALIA WATKINS E TAMARA FISCH

s 7 horas da noite de 22 de outubro de 1962, a histria aproximou-se do precipcio. Em um pronunciamento na televiso, o presidente americano John Fitzgerald Kennedy anunciou que os soviticos haviam instalado msseis nucleares em Cuba. O flagrante fora obtido por um avio espio U-2 no dia 14 daquele ms. Era uma ameaa inaceitvel, cujo agravamento Kennedy tentou conter com um bloqueio naval a Cuba. Na matemtica da Guerra Fria, acreditava-se que a reao a um ataque s teria efeito se fosse imediata. Por isso, o governo americano elevou o nvel do alerta nuclear para DEFCON 2, o que, entre outras medidas, fez decolar de suas bases na Europa os avies B-52 carregados com bombas nucleares e com a proa para Moscou. O mundo nunca esteve to perto da hecatombe nuclear. Kennedy disse aos membros do seu gabinete de crise que o risco de isso ocorrer chegara a um em trs. O impasse durou treze dias, ao fim dos quais as duas superpotncias inimigas conseguiram contornar os chamados s armas por meio da diplomacia. Para desiluso dos lderes cubanos, ansiosos por iniciar uma guerra nuclear, Kennedy e o lder sovitico Nikita Kruschev chegaram a um acordo. Os russos retiraram as armas da ilha e os americanos se comprometeram a no invadir Cuba e a desmantelar seus msseis (obsoletos) na Turquia. O episdio teve como saldo a renovao da frmula de conteno mtua. Trs dcadas mais tarde, a Unio Sovitica se desintegrou, vtima dos prprios fracassos internos e no de um ataque nuclear externo.

Os msseis foram instalados em Cuba para coibir uma invaso americana
MITO  Embora essa tenha sido a desculpa usada, as razes foram outras. Os historiadores descobriram recentemente que a ideia de instalar as armas nucleares na ilha foi dos soviticos, no dos cubanos. A Unio Sovitica buscava um equilbrio militar em relao aos Estados Unidos. Os msseis intercontinentais americanos, capazes de atingir a Unio Sovitica, tinham o triplo do poder destrutivo dos similares dos rivais. O arsenal de mdio alcance instalado a 230 quilmetros da Flrida poderia reduzir essa desvantagem. Fidel Castro s aceitou a proposta depois de muita insistncia. No para aprimorar nossa defesa, mas primordialmente para fortalecer o socialismo no plano internacional, disse Castro.

Os soviticos fingiam que os msseis eram rvores 
VERDADE  O plano era anunciar a existncia do arsenal no fim de 1962. Para esconderem o projeto, alguns militares soviticos desembarcaram em Havana vestindo camisas coloridas. Queriam ser confundidos com turistas. Do porto, porm, saam marchando em filas, tornando o disfarce incuo. As armas comearam a ser camufladas, com folhas, s depois que os americanos j sabiam de sua existncia. Os soviticos achavam que podiam fazer com que os msseis de 22 metros de comprimento fossem confundidos com palmeiras. No deu certo.

Ao decidir no atacar a ilha, Kennedy evitou um conflito nuclear
VERDADE  Ao ver as fotos areas das instalaes de msseis em Cuba, John Kennedy ouviu de seus conselheiros que tinha duas alternativas. A primeira, apoiada pela maioria dos membros do Comit Executivo do Conselho Nacional de Defesa (ExComm), era invadir a ilha e destruir o arsenal sovitico. O secretrio de Defesa, Robert McNamara, se opunha ao ataque. A segunda opo era conformar-se com a existncia de um arsenal atmico inimigo no quintal de casa. Kennedy criou uma terceira via. Ele abriu espao para negociar com os russos, mas com um prazo bem definido. Paralelamente, por sugesto do procurador-geral Robert Kennedy, seu irmo, ordenou um bloqueio naval. Todos os barcos que se aproximassem da ilha seriam vistoriados. Com a medida, catorze navios com armas retornaram  Unio Sovitica. Kennedy definiu que, se as bombas j em solo cubano no fossem retiradas at 28 de outubro, um ataque ocorreria nas 48 horas seguintes. Os soviticos respeitaram o ultimato. Em troca receberam o compromisso pblico de Kennedy de no interferir em Cuba e a promessa, mantida em segredo, de retirar os msseis americanos instalados na Turquia. Se Kennedy tivesse acatado a primeira recomendao de seus conselheiros, os oficiais soviticos em Cuba teriam revidado com msseis tticos nucleares, pois no precisavam de autorizao de Moscou para dispar-los no caso de uma invaso.

O mundo esteve  beira da destruio
VERDADE  Em 1963, John Kennedy contou em um discurso o que aconteceria se houvesse um conflito nuclear. Poderia matar 300 milhes de americanos, europeus e russos, assim como inmeros outros. Os sobreviventes, como disse o presidente Kruschev, invejariam os mortos. Pois eles herdariam um mundo devastado por exploses, veneno e fogo, cujos horrores hoje nem sequer somos capazes de imaginar. Segundo a teoria do inverno nuclear, criada nos anos 1980, as exploses levantariam nuvens de poeira e material radioativo. O material bloquearia a luz do sol e poderia causar a extino da vida no planeta.

J no fim do impasse, Fidel props disparar os msseis contra os EUA
VERDADE  Em 26 de outubro, Kruschev enviou uma carta a Kennedy cogitando retirar os msseis. No mesmo dia, Fidel enviou uma mensagem ao sovitico em que sugeria duas sadas para a crise, nenhuma delas pacfica. A primeira e mais provvel  um ataque areo contra certos objetivos, com a misso limitada de destru-los. A segunda, menos provvel mas possvel,  uma invaso completa (dos Estados Unidos).

Che Guevara queria se salvar, abandonando os cubanos  prpria sorte
VERDADE  Para o argentino, os cubanos estavam dispostos a morrer pelo socialismo.  o exemplo tremendo de um povo disposto ao autossacrifcio nuclear, para que suas cinzas sirvam de alicerce para uma nova sociedade, disse Che. Ele e os demais membros do governo, no entanto, planejavam se abrigar em bunkers instalados na embaixada sovitica, na casa de Fidel Castro e em uma caverna perto de Havana.

Jacqueline Kennedy ofereceu-se para morrer ao lado do marido
VERDADE  Quando descobriu que os soviticos instalavam msseis em Cuba, a primeira-dama americana implorou ao presidente que no a mandasse para um lugar seguro. Eu quero morrer com voc, e as crianas tambm, disse ela.

O governo brasileiro ajudou a negociar uma sada para o impasse 
MITO  Kennedy de fato solicitou ao presidente Joo Goulart que conversasse com Fidel. Em 25 de outubro, porm, dias aps ter votado a favor do bloqueio naval contra Cuba na Organizao dos Estados Americanos (OEA), o governo brasileiro deu um passo atrs. Jango pediu garantias aos americanos de que no invadiriam a ilha e se declarou publicamente contra as sanes. Leonel Brizola, cunhado de Jango, eleito deputado pelo estado da Guanabara, disse que as fotos feitas pelos avies U-2 eram falsas e fez discursos raivosos contra os Estados Unidos. No fim, Kennedy e Kruschev se entenderam sem precisar da ajuda brasileira.

Depois da crise, a Casa Branca e o Kremlin instalaram o telefone vermelho, uma linha direta entre os presidentes das duas potncias, para facilitar a soluo de impasses futuros 
EM TERMOS  A lentido nas comunicaes ficou evidente ao longo de outubro de 1962. Para falar com Kruschev, o presidente americano enviava mensagens ao embaixador sovitico em Washington por meio de seu irmo Bob Kennedy. As mensagens eram codificadas e enviadas a Moscou por telegrama. Quando precisavam agilizar o processo, os lderes dos dois pases faziam discursos nas rdios com recados para os rivais. Depois do impasse em Cuba, americanos e soviticos comearam a usar o teletipo, um precursor dos aparelhos de fax. A linha telefnica direta e exclusiva foi utilizada somente a partir dos anos 70. Foi por meio dela que o presidente russo Vladimir Putin se tornou o primeiro chefe de estado a expressar condolncias a George W. Bush pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

Sabe-se mais sobre os bastidores da crise nos EUA do que na Unio Sovitica
VERDADE  Por um ano e quatro meses, as reunies no Salo Oval e no gabinete da Casa Branca, alm de conversas telefnicas, foram gravadas a pedido de John Kennedy. Os equipamentos ficavam no poro da Casa Branca e o presidente os ligava ou desligava por meio de botes escondidos nas duas salas. Ao todo, 248 horas de conversas foram gravadas desde julho de 1962. O contedo dos arquivos passou a ser revelado a partir de 1993. No ms passado, um livro do historiador Ted Widmer revelou as ltimas 45 horas de gravaes. Do lado dos russos, h relatos esparsos de oficiais que participaram de encontros na Unio Sovitica com os cubanos, algumas cartas, telegramas e memorandos de reunies.

O PESO DA DECISO  John Kennedy no salo Oval da Casa branca, em 1962: a maneira como seu governo resolveu a crise serve de lio a todos os presidentes dos EUA desde ento.

O PERIGO TOMOU CORPO - Nikita Kruschev com o cubano Fidel Castro, em 1960 ( direita); foto feita por avio americano mostra o navio Kasimov levando peas de bombardeiros IL-28 a Cuba, em setembro de 1962; e alguns dos 43.000 soldados soviticos que desembarcaram marchando na ilha com roupas civis: a instalao do arsenal atmico foi iniciativa dos soviticos, que tentaram disfarar a empreitada.

AMEAA NO AR - Abrigo nuclear para uma famlia de cinco pessoas, no alto; Kennedy em frente aos lanadores de msseis Honest John, em Fort Stewart, na Gergia; e protesto de mulheres pela paz em Nova York: a aprovao do presidente subiu de 63% para 74% aps afim da ameaa em Cuba

MEDO E SACRIFCIO - Americanos assistem ao discurso em que o presidente John Kennedy anuncia a existncia de msseis nucleares em Cuba, em 1962 (acima), e a primeira-dama Jackie com o filho John Jr. Ela no queria ser levada para um lugar seguro com os filhos sem o marido.

Especialistas consultados: Christian Ostermann (Centro Wilson), Robert Jervis (Universidade Colmbia), Timothy J. McKeown (Universidade da Carolina do Norte), Graham Allison (Universidade Harvard), Konstantin Khudoley (Universidade de So Petersburgo), Boris Martynov (Universidade de Relaes Internacionais de Mascou), Boris Shiriaev (Universidade Estadual de So Petersburgo), Bruno Borges (PUC-Rio), o historiador Chris Pocock e Sarah Lichtman (Faculdade Parsons).


6. COMPORTAMENTO  TRADOS E TRIPUDIADOS
Homens enganados sofrem trs vezes: pela infidelidade, pela chacota e pela vergonha de desabafar. Aquela palavrinha horrvel no sai da cabea.
MARIANA AMARO

 uma coincidncia curiosa. Nas duas principais novelas do momento, Avenida Brasil e Gabriela, os personagens Tufo e Nacib passaram captulos recentes descobrindo como foram trados pelas respectivas mulheres. Ambos so homens de bom carter, ligeiramente depressivos e deveriam contar com a empatia do pblico. De forma geral, porm, as respostas que provocam so impublicveis, numa manifestao enftica do repdio, do desprezo e do isolamento social dirigidos aos homens enganados. Com medo desse julgamento,  comum que eles no exeram sequer o direito universal de chorar num ombro amigo, como costumam fazer as mulheres. At quando procuram ajuda para lidar com os sentimentos altamente negativos que a traio em um relacionamento importante provoca, podem demorar a assumir o real motivo. A psicloga paulistana Giovanna Lucchesi teve um paciente que demorou dois meses para dizer que uma suspeita de traio era a razo que o havia levado a buscar tratamento. Depois que falou, veio uma enxurrada de lgrimas, palavres, ameaas de morte  mulher e de suicdio, enumera Giovanna. O paciente tambm sofria com a mais corrosiva das reaes, a de culpar a si mesmo por algo fora do prprio controle. Eu no fui homem, eu falhei, dizia.
     Traio conjugal maltrata a alma de qualquer um. Sofrer calado, com no mximo um desabafo movido a lcool, que nunca mais ser abordado entre amigos, cria uma espcie de camada sedimentar de mgoa. Quando as mulheres contam s melhores amigas,  me, s primas, esto desencadeando um processo que faz com que a aceitao do sofrimento acontea mais rpido, diz Giovanna. Como o maior medo dos homens tende a ser que os amigos e a famlia saibam, o segredo ruim paira como um tormento. Eventos sociais transformam-se em um martrio porque qualquer gargalhada ouvida  imediatamente associada quele segredo, afirma a antroploga paulista Mirian Goldenberg. A experincia de anos atendendo pacientes homens trouxe ao psiclogo americano Dennis Ortman, autor do livro Superando o Stress Ps-Infidelidade, uma concluso aterradora sobre os trados. A dor pode ser to traumtica quanto passar por um crime violento, um abuso sexual ou um acidente de carro, compara.
     No  difcil imaginar por que  to arraigado o horror masculino  traio. Porque ele investiu ateno, recursos e carinho em filhos que podem no ser dele, repete o psiclogo americano Kevin Bennett, estudioso do comportamento humano com base nos processos da perpetuao da espcie. Mas os sucessivos crculos de condenao social so relativamente mais recentes, com as excees de praxe das curiosidades antropolgicas sobre os povos tribais entre os quais no existe o conceito de exclusividade sexual. Como poucos de ns vivem em tribos isoladas e talvez menos ainda pratiquem de fato o swing, ou troca de cnjuges, prevalece a norma do repdio muito mais intenso no s  mulher que trai, mas ao homem que  trado. Quando queremos xingar um homem, chamamos o sujeito de corno. Corno manso, ento, pega direto na honra. J a ofensa mais comum  mulher  dizer que ela dorme com todo mundo, diz a terapeuta sexual gacha Jaqueline Brendler. Quem j viu no esquece quando a espetacularmente perversa Carminha, interpretada por Adriana Esteves, em companhia do amante, usa o termo chulo para se referir ao humano e compreensivo Tufo de Murilo Bencio. J o amante, quando briga com Carminha, que aprontou tudo em matria de safadeza  roubou, traiu, enterrou a inimiga viva , chama-a sempre de vadia.
     Na vida real, uma espcie de novela global da traio desenrola-se diante dos olhos do mundo: a de Kristen Stewart e Robert Pattinson, os jovens, lindos e idealizados atores da srie Crepsculo. A opinio pblica est to acostumada a casos de homens famosos pegos em flagrante de infidelidade  e parecia to absurdo que o ator mais bonito do mundo fosse enganado  que a primeira reao, em especial das jovens fs da dupla, foi de incredulidade quando apareceram as fotos de Kristen trocando carcias acaloradas com o diretor de cinema Rupert Sanders. J a reao de Pattinson foi se esconder em casa de amigos. Precisou ter muito sangue-frio  de vampiro?  para enfrentar, em situaes cuidadosamente controladas por seus profissionais de relaes pblicas, o oprbrio de ter sido enganado com cobertura mundial. Tecnicamente, no teria do que se envergonhar e talvez transforme tantos limes em doses cavalares de caipirosca. Qual mulher, no mundo, no acompanhar a campanha de divulgao do ltimo filme da srie, quando ele e Kristen devero se apresentar juntos? E quantas no torcero pela reconciliao? Um indcio: numa pesquisa de VEJA.com, 60% dos participantes espontneos votaram pelo perdo.
     O homem que vai contra tudo e contra todos para perdoar a mulher que o traiu  o tema central que Jorge Amado usou em Gabriela. Um tema perturba- dor e subversivo, tratado em muitas obras-primas, a comear pela maior de todas, a Ilada. No poema pico em que Homero retomou a histria da guerra de Troia, o marido que lutou durante dez anos para se vingar do homem que lhe roubou a mulher, a traidora Helena, sucumbe  beleza literalmente mitolgica dela. Quando Helena expe o peito para a espada que tambm a traspassar, Menelau reage como Nacib e desiste. Segundo a verso de Homero, eles voltam a ficar juntos. Em Esparta, como em ilhus, vence o corao.
     No  para qualquer um. O impulso do exclusivismo frequentemente ultrapassa as fronteiras do prprio casamento. O caso recente do cantor Zez di Camargo foi um sinal eloquente disso. Ele estava havia dois anos separado, na prtica, da mulher, Zil. Ela morava em Miami, ele continuava sua vida independente no Brasil e mantinham uma espcie de trgua. A famlia, to conhecida, era preservada e os bens em comum no precisavam ser divididos. Tudo mudou quando surgiu na internet uma foto de Zil abraada a um rapaz. Ela garantiu que era um amigo, do tipo que jamais passaria disso. O problema foi que comearam a dar risadinhas, a fazer piadinhas, e ele no aguentou. Ser chamado daquilo foi demais para o Zez. Mesmo que no fosse verdade, conta Zil. Diante do estigma associado, ela sugeriu que eles oficializassem a separao. Vi que ele estava sofrendo e lhe dei carta branca para dizer a todo mundo que no estvamos mais juntos, diz. , de alguma maneira, o amor. 


7. CINCIA  MAIS UM PEQUENO PASSO
Cientistas da Nasa concluem que distorcer o espao entre corpos celestes, reproduzindo foras que se expandem o cosmo desde o Big bang, pode ser uma forma plausvel de viajar pelo universo.
FILIPE VILICIC

     Astrofsicos comparam a explorao espacial  expanso martima que ocorreu entre os sculos XV e XVII, marcada pela chegada de Cristvo Colombo s Amricas, em 1492. O universo impe uma nova fronteira, similar  que representaram os mares. Se navegar pelos oceanos foi um desafio espetacular, voar pelo universo  aventura ainda mais herclea. A Terra est a anos-luz de distncia de outros sistemas estelares e uma regra fundamental da fsica nos limita: nada  mais rpido que a luz. Mesmo se alcanssemos essa velocidade, a jornada para estrelas vizinhas levaria no mnimo quatro anos. Cientistas da Nasa apostam que a soluo no est em tentar ser veloz, mas em dobrar o espao-tempo para aproximar corpos celestes e impulsionar espaonaves em direo a eles. Viagens de anos-luz demorariam meses. Essa possibilidade ainda  restrita  fico cientfica, mas comea a tomar contornos reais em laboratrios.
     Com a tecnologia atual, no samos das redondezas do Sol. O mais longe que se chegou foi com a sonda Voyager 1, lanada em 1977. Depois de quase quatro dcadas de viagem, ela atingiu o limiar do sistema solar. Hoje, os sinais enviados por ela demoram dezessete horas para chegar  Terra. Seriam necessrios pelo menos outros 75.000 anos para que a Voyager alcanasse outra estrela. Disse a VEJA o engenheiro espacial Harold White, chefe do departamento da Nasa encarregado de testar possibilidades para levar o homem a partes longnquas do universo: Distorcer o espao  algo que a natureza faz desde o Big Bang. Resta saber se conseguimos reproduzir esse efeito. O Big Bang originou a sbita expanso do universo h 13,7 bilhes de anos e, por motivos enigmticos, o cosmo continua a se alongar. Cientistas acreditavam que era preciso um acmulo enorme de energia para simular a contrao e a expanso do espao. Clculos de Harold White e sua equipe redefiniram a conta. Pela nova equao, produzir essa distoro  plausvel, e ela pode ser simulada.
     Dois modelos tericos explicam deformaes sbitas do espao. Um  o wormhole (em ingls, buraco de minhoca), no qual se distorce o cosmo criando um tnel que transporta naves pelo universo. Invivel. Teramos de agrupar massa equivalente  de uma estrela para cogitar um wormhole, diz o astrofsico brasileiro Nilton Renn, pesquisador da Nasa. O outro caminho, seguido pelo time de White,  o warp drive (dobra espacial). O termo surgiu na fico, em Jornada nas Estrelas, e nomeou a teoria do fsico mexicano Miguel Alcubierre, em 1994. Pelo modelo, uma fonte energtica produz uma bolha ao redor da espaonave. A bolha expande o espao na traseira, enquanto o contrai na frente, impulsionando a nave (veja o quadro abaixo). Essa  a tal dobra.  como se a nave fosse um surfista em cima de uma onda (a dobra) que o leva pelo mar (o universo). Para a tripulao, a nave pareceria imvel. Em relao  Terra, a velocidade superaria a da luz. Sistemas estelares seriam alcanados em poucos meses. Alcubierre apostava que para criar uma dobra seria necessria uma energia equivalente  da massa de Jpiter. Novamente, uma impossibilidade. Harold White, da Nasa, recalculou. Em sua equao, afinou a bolha no entorno de uma nave esfrica de 10 metros de dimetro. Por consequncia, diminuiu a dimenso da fonte energtica para 750 quilos. Em laboratrio, testar a ideia em uma experincia na qual far uma dobra minscula (uma frao em 10 milhes daquela estimada para viagens espaciais).  um novo pequeno passo. Com a teoria confirmada, podemos cogitar em naves que nos levem a outros planetas, diz White. A explorao espacial tem outros obstculos a ser vencidos. Mas a distncia entre os corpos celestes  o maior problema.

PENSANDO UM IMPENSVEL
A velocidade da luz  pouco.  Para conquistar o espao exterior ser preciso usar um atalho terico: a dobra no espao-tempo.

Na teoria ficou mais fcil  J se pensou que seria preciso uma energia equivalente  da massa do planeta Jpiter para criar uma dobra do espao-tempo. Novos clculos mostram que basta a energia contida em um objeto do tamanho de uma sonda espacial de 750 quilos.
1- O espao se expande atrs, enquanto se contrai na frente, como se fosse uma onda no mar. Assim, aproxima objetos distantes e empurra a nave em direo a eles.
2- Para a tripulao, a nave permanece imvel. Ela se deslocaria dez vezes mais rpido que a luz em relao  Terra.

Como a teoria ser posta  prova em um laboratrio da Nasa
Um canho vai disparar um laser em um anel de 1 centmetro de dimetro
Um detector desenhado para a experincia registrar a quantidade de energia suficiente para criar a dobra
A energia deformar o espao ao redor do anel. Essa  a dobra espacial

Na vizinhana
TERRA
PROXIMA CENTAURI:
Estrela mais prxima
Distncia: 4,22 anos-luz
Tempo para chegar l com a dobra espacial: cinco meses

GLIESE 581G
Planeta que pode abrigar vida similar  Terra
Distncia: 20 anos-luz
Tempo para chegar l com a dobra espacial: dois anos.


